A conferência Psychedelic Science discute usos
medicinais das drogas, e derruba mais uma barreira criada pelo
preconceito
Ecstasy contra estresse pós-traumático, LSD para dor de cabeça,
psilocibina no tratamento do tabagismo. O que poderia parecer um sonho
há alguns anos está se tornando realidade. Depois de décadas de
perseguição, os alucinógenos estão na mira de cientistas do mundo do
todo, interessados no possível potencial dessas substâncias para
tratamentos diversos. Esse novo cenário é o tema da segunda edição da
conferência
Psychedelic Science, que começou na quinta (18), em Oakland, na Califórnia, e termina nesta segunda (22).
A conferência reúne mais de 100 dos principais pesquisadores de 13
países, que apresentarão as descobertas mais recentes sobre os
benefícios e riscos de diferentes substâncias psicoativas, como ibogaína
(que faz o usuário sonhar acordado), ketamina (anestésico veterinário) e
maconha. As palestras e workshops deram destaque para estudos sobre o
potencial terapêutico da ayahuasca,
beberagem de origem amazônica usada em rituais indígenas e em cultos
religiosos brasileiros, como Santo Daime e União do Vegetal.
Nunca se pesquisou tanto esse tema, diz a antropóloga brasileira Bia
Labate, professora visitante do Programa de Política de Drogas do Centro
de Pesquisa e Ensino Econômico - Cide, em Aguascalientes, no México.
Ela é consultora do Maps (sigla em inglês para Associação
Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos) e diz que o evento é "o
maior encontro internacional da história entre estudiosos do campo da
ayahuasca".
Segundo ela, houve uma explosão de interesses sobre a natureza, e os
efeitos e usos do chá psicoativo. "Depois de uma longa jornada de
perseguição e banimento pelos colonizadores, seguido pelas políticas
proibicionistas de drogas, observamos a propagação de rituais da
ayahuasca em toda a Europa e América do Norte, e uma enorme expansão no
estudo científico dessa substância", relata.
O eixo do evento voltado para o
chá psicodélico,
coordenado pela antropóloga, reúne 30 apresentações de pesquisas, um dia
de workshop, exibição de filmes e debates em torno de questões como
segurança, ética e comercialização do uso da ayahuasca no chamado
'turismo espiritual'. Com recorte multidisciplinar, inclui perspectivas
de neurociência, neurobiologia, psiquiatria, farmacologia,
etnofarmacologia, etnobotânica, psicologia, saúde pública,
epidemiologia, antropologia, direito e educação. "São pesquisadores do
Brasil, EUA, Canadá, Alemanha, Espanha, Peru e México", acrescenta a
antropóloga.
"Em sua maioria, apresentações abordam o ritual e os usos clínicos
dessa substância no tratamento de várias doenças e enfermidades, como a
depressão, e especialmente seu papel no bem-estar psicológico, qualidade
de vida e na formação da identidade", prossegue Labate. Outra abordagem
relevante são as investigações dos efeitos da ayahuasca como
complemento para a psicoterapia em casos de dependência química.
É esse, aliás, o campo de atuação do brasileiro Dartiu Xavier,
professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São
Paulo, onde também é diretor do Programa de Orientação e Atendimento a
Dependentes (Proad). O psiquiatra, que é um dos palestrantes na
conferência norte-americana, participa atualmente de vários estudos
sobre o tema, entre eles um de avaliação neurofisiológica dos efeitos
agudos da ayahuasca (dosagens de hormônios no sangue e
eletroencefalograma), e outro que trata dos sintomas depressivos e
ansiedade em usuários do chá amazônico.
"Esta conferência abrange todos os alucinógenos, mas tem uma ênfase
especial na ayahuasca, pelo fato de aparentemente ser uma substância de
uso seguro, e que não causa dependência, além do fato deste uso estar
aumentando no mundo inteiro nos últimos anos", argumenta Xavier.
Ele vê com otimismo o crescimento do interesse cientifico nos
psicodélicos em geral. "Vários grupos de cientistas no mundo estão de
olho nesse tema, estamos para começar um destes estudos aqui no Brasil",
informa o psiquiatra. "Estamos elaborando uma pesquisa que pretende
investigar o uso terapêutico de alucinógenos em dependentes de cocaína e
crack, sendo um deles com ayahuasca e outro com ibogaína". O
psiquiatra, entretanto, explica que falta ainda a aprovação dos comitês
de ética.
DEPRESSÃO
Outro destaque do congresso são os estudos que investigam o
uso da ayahuasca como antidepressivo,
dos brasileiros Dráulio de Araújo, especialista em neuroimagens, e
Sidarta Ribeiro, neurocientista, ambos da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. "Investigamos dois processos cognitivos modulados pela
ayahuasca: mudança do foco da atenção para processos internos e a
potencialização na criação de imagens visuais mentais. Os dois estudos
foram realizados usando a imagem funcional por ressonância magnética",
descreve Xavier.
Parte dos resultados, segundo ele, contém indicações do potencial de
uso da ayahuasca como antidepressivo. Há um estudo piloto sendo
conduzido no Brasil (em fase final), com a participação dos
pesquisadores da UFRN, sob a coordenação do psiquiatra Jaime Hallak, da
USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto. "As conclusões são
bastante animadoras", comenta Araújo.
A segunda fase da pesquisa será coordenada pela equipe da UFRN.
"Pretendemos utilizar vários marcadores biológicos (bioquímicos,
eletroencefalografia, imagem por ressonância magnética, avaliações
neuropsicológica e psiquiátrica) para fazer uma avaliação mais
abrangente sobre esse suposto potencial no tratamento de pacientes com
depressão", detalha o neurocientista.
RECEIO
Mas para pesquisadores mais ortodoxos ainda faltam algumas etapas
para que o uso terapêutico de alucinógenos se torne um fato. É o que
defende Arthur Guerra, diretor do Programa de Álcool e Drogas do
Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da USP (Universidade
de São Paulo). "Vejo essas experiências com muita reserva", diz.
"Qualquer conduta que não seja suficientemente comprovada oferece
riscos".
Guerra reconhece a qualidade e o avanço das pesquisas nesse campo,
mas se diz de outro time. "Sou da ala mais clássica". Após a fase de
diagnóstico do dependente químico, segundo ele, em geral são
identificados outros problemas, como fobia, depressão e outros, por isso
sua opção ainda é por tratamentos convencionais. "São mais seguros",
diz.
Embora na outra margem, o neurocientista Draúlio de Araújo concorda
com o cuidado sugerido por Guerra. Para ele, qualquer medicamento novo
passa por várias etapas de testes para que sejam avaliados seus
benefícios e riscos. "O processo é, e deve ser, exatamente o mesmo nos
casos de qualquer substância psicoativa".
Também participam das apresentações sobre ayahuasca os pesquisadores
Gabor Maté, médico canadense nascido na Hungria, especializado no estudo
e tratamento de dependência, o francês Jacques Mabit, diretor do Centro
Takiwasi em Tarapoto, no Peru, dedicado à reabilitação de dependentes
químicos com ayahuasca e práticas tradicionais de cura, e José Carlos
Bouso, psicólogo clínico do Programa de Pesquisa de Neurociências do
Hospital del Mar Research Institute.
via: http://www.psicodelia.org/noticias/conferencia-nos-eua-sobre-ciencia-psicodelica-chega-a-segunda-edicao